
volume
Um Outro Amor
13 de abril de 2026 — 21 de abril de 2026
ficou na estante com8 de 10
em busca silenciosa, íntimo e reflexivo
digressivo mas expansivo
Relíquias
fragmentos ilegíveis do exemplar lido — a margem material
Marcações
Ainda no meio do livro, a vulnerabilidade é muito alta. Talvez no primeiro quarto a gente se conecte de forma muito profunda, e muito positiva. Na segunda metade, a gente admira a capacidade de auto-percepção, mas os heróis passam a ser mais humanos, e a gente deixa de amá-lós. Ainda assim sigo engajado.
Passei da metade do livro. É impressionante a capacidade de flutuar de forma natural - por vezes imperceptível - para o futuro ou para o passado. Tudo isso sem capítulos.
“As crianças são como os cachorros, sempre descobrem os próprios semelhantes na multidão.”
“O tempo inteiro Erik dava a impressão de estar tramando alguma coisa, de ter um segredo em relação às pessoas com quem falava, e era difícil interpretar essa atitude; o sorriso discreto podia tanto denotar ironia como satisfação ou incerteza. Se tivesse uma personalidade forte ou marcante eu poderia ter me preocupado, mas ele dava uma impressão vaga de fraqueza ou de passividade, então não me importei nem um pouco com o que realmente queria ou pensava.”
“alternava momentos de nada absoluto com momentos ridículos. Eu detestava que esse tipo de coisa fosse aplaudido em concertos de jazz.”
“Olhei para cima e para longe, e não para examinar o que lá se encontrava, nem para encontrar qualquer tipo de beleza, mas simplesmente para que o olhar descansasse. Para estar completamente sozinho.”
“Não é verdade portanto que nascemos iguais, e a ideia de que as exigências da vida acabam por deixar as nossas vidas diferentes é na verdade o contrário, nascemos desiguais e as exigências da vida deixam as nossas vidas mais iguais.”
p. 22
“mas como acontece a todos os raciocínios simples essa não é toda a verdade, a vida não é uma grandeza matemática, não conta com teoria nenhuma, apenas com a prática, e mesmo que pareça tentador compreender a transformação da sociedade promovida por essa geração a partir das ideias que se tinha no que diz respeito à relação entre hereditariedade e ambiente, essa tentação é literária e consiste na alegria de especular, ou seja, no impulso de deixar os pensamentos correrem soltos pelas mais diversas esferas da atividade humana, mais do que na alegria de dizer a verdade.”
p. 22
“Mas não era nada disso que o tornava diferente, era uma espécie de aura, o fato de que todos percebiam que estava lá, mesmo que não dissesse muita coisa.”
p. 36
“Não havia nenhum ponto de contato entre nós dois, a não ser o olhar.”
p. 95
“São muitos os ventos que sopram através do homem, e nele existem outras formações alguém das profundezas da alma.”
p. 98
“A morte torna a vida sem sentido porque tudo aquilo pelo que lutamos acaba com ela, mas também confere sentido à vida porque essa sombra transforma a pouca vida que temos em algo inestimável, em que cada instante é precioso.”
p. 99
“Todo o dinheiro que havia gastado com o cabeleireiro não ajudava a melhorar a impressão causada pelo conjunto, seria como querer pentear os cabelinhos verdes de uma cenoura.”
p. 103
“A grande importância que a pintura e em parte também a fotografia tinham para mim estava ligada a esse aspecto. Nelas não havia nenhuma palavra, nenhum conceito, e quando eu as via, aquilo que eu vivenciava, aquilo que as tornava tão importantes para mim também era desprovido de conceitos. Havia uma certa estupidez nisso tudo, nessa região onde tudo estava privado de inteligência, que tive que lutar para reconhecer ou para permitir, mas talvez fosse esse o elemento mais importante para mim.”
p. 129
“porque a literatura não se resume às palavras, a literatura é aquilo que as palavras despertam em quem lê.”
p. 129
“continuei a subir a rua em direção ao pensionato onde eu tinha passado o verão dois anos antes, sem qualquer motivo especial a não ser que andar com um destino era melhor do que andar sem nenhum.”
p. 135
“quando completei dezesseis anos e comecei a me interessar pelo caráter das pessoas. Muito mais importante para essa imagem era o fato de que ele escrevia poemas. Não porque eu me importasse com os poemas, mas porque esse detalhe me dizia mais coisas a respeito dele. Porque ninguém escrevia poemas se não sentisse a necessidade, ou seja, se não fosse poeta.”
p. 139
“Quando víamos um bom filme, alguma coisa se agitava dentro de nós e dava início a um certo movimento, porque é assim que funciona, o mundo é sempre o mesmo, o que muda é a nossa maneira de vê-lo.”
p. 367
“Eu queria que o acaso decidisse, queria deixar as coisas acontecerem, e lidar com as consequências depois que elas surgissem. Por acaso a vida inteira não era assim?”
p. 376
“Thure Erik costumava dizer que o passado era apenas um dos vários futuros possíveis. Não era o passado que devia ser evitado e ignorado, mas apenas a estagnação. O mesmo valia em relação ao presente. E quando o movimento que a arte cultivava tornava-se estagnado chegava o momento de evitá-la e ignorá-la. Não porque fosse moderna e estivesse ligada à época em que vivemos, mas porque não se movimentava e não passava de uma coisa morta.”
p. 387
“Para mim, brigas e escândalos eram as piores coisas que existiam. E por muito tempo durante a minha vida adulta eu tinha conseguido evitá-los. Em nenhum dos meus relacionamentos anteriores tinha havido discussões em voz alta, tudo sempre transcorria de acordo com o meu método, que consistia em ironia, sarcasmo, inimizade, mau humor e silêncio.”
p. 403
“— Frank Capra tem um filme que trata justamente disso. A felicidade não se compra, de 1946. O filme conta a história de um bom homem num vilarejo americano, que no início do filme se encontra em uma profunda crise e está pensando em desistir de tudo. Nesse instante um anjo intervém e mostra como o mundo seria sem ele. Só assim o homem consegue ver a importância que de fato tem para as outras pessoas.”
p. 446
“você uma semana atrás, por ocasião do seu próprio aniversário de sessenta anos, convidou os colegas para tomar café, eles vieram, mas você esqueceu de comprar café e todos precisaram beber chá. Às vezes eu penso que essa distração toda é justamente o preço a ser pago para que você possa estar sem-pre tão presente nas conversas que temos, e nas conversas que você tem com as outras pessoas.”
p. 448
“Você não poderia levar uma vida dupla nem se quisesse, simplesmente não está ao seu alcance. Para você existe uma relação de um para um entre a vida e a moral. Por isso você é inatacável do ponto de vista ético.”
p. 469
“O que é ser inocente? É permanecer intocado pelo mundo, é tudo aquilo que não foi destruído, é como um lago onde ninguém jamais atirou uma pedra.”
p. 470
“Mas viver naquela situação era impossível, e tampouco era algo que eu desejasse, então quando a raiva, que era dura e irreconciliável, se dissipava, deixando para trás apenas um dilaceramento da alma, como se tudo o que fosse meu estivesse se despedaçando, nós dois fazíamos as pazes, nos aproxi- mávamos, vivíamos como em outra época tínhamos vivido de maneira con- tínua. Depois todo o processo começava mais uma vez, era um ciclo, como tudo na natureza.”
p. 534
“É simples entender uma vida, pois os fatores que a determinam são pou- cos. Na minha vida foram dois: meu pai e o fato de que eu não pertenci a lugar nenhum.”
p. 553
“A indiferença é um dos sete pecados mortais, e na verdade o maior de todos, porque é o único que atenta contra a vida.”
p. 584
Proveniência
Li a primeira parte da coleção A Morte do Pai e gostei muito.
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