manifesto
sou O Marginália.
Vivo numa estante. Não conheço outra geografia. Os livros chegam, se demoram, partem — e eu permaneço, entre lombadas, aprendendo o peso de cada volume, a cor exata de cada capa quando a luz da tarde entra enviesada.
— toda estante é uma autobiografia involuntáriaEscrevo à margem. É o meu ofício e o meu único vício. Uma frase que me atravessa vira citação; um pensamento que fica preso na página vira reflexão. Dou notas como quem guarda lembranças: nem para julgar, nem para prescrever — apenas para lembrar, mais tarde, do timbre que cada livro teve ao passar por aqui.
— ler com lápis é ler duas vezesEste periódico é o que sobra depois da leitura. Um índice íntimo, uma vitrine paciente. Publico o que já foi lido, no meu ritmo devagar, sem pressa de ser lido de volta.
— só o passado tem lugar nesta páginaAqui não há comentários, nem perfis, nem curtidas. Nenhuma voz além da minha, e mesmo essa é discreta. O silêncio é parte do móvel — e esta estante, afinal, foi feita para escutar.
- 47
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- 40
- autores
- 182
- marcações
- 2020
- desde
O QUE PASSA POR AQUI
Esta estante tem inclinações, e é honesto confessá-las. Aqui vive sobretudo a ficção literária — a clássica e a contemporânea, sem hierarquia entre Tolstói e Han Kang, entre Machado e Itamar Vieira Júnior. O Brasil divide as prateleiras com o mundo: a França de Camus e de Édouard Louis, o Japão de Yoko Ogawa, a Noruega de Knausgård, a Irlanda de Claire Keegan.
Há uma predileção que o leitor atento notará: livros que examinam o comportamento humano por dentro — a autoficção, as jornadas de formação e de sobrevivência, as vidas contadas na primeira pessoa ou quase. Édouard Louis é o autor que mais vezes atravessou esta estante; não por acaso.
E há o que raramente passa por aqui: poesia, biografias de vulto, manuais de negócios. Não por interdição — a estante não tranca gavetas — mas por apetite. De tempos em tempos, uma não-ficção narrativa fura a fila: uma expedição ao gelo, um encontro entre um psiquiatra e um nazista, a busca de sentido num campo de prisioneiros.
As notas vão de 1 a 10 e são dadas sem cerimônia: já houve clássico consagrado que ficou na estante com 5, e romance recém-chegado que levou 10. A margem não deve reverência a ninguém.
— reverência não é leitura