
volume
O Peso do Pássaro Morto
por Aline Bei
3 de julho de 2026 — 4 de julho de 2026
ficou na estante com8 de 10
lírico, elegíaco e assombrado
sem fôlego mas devastador em silêncio
Relíquias
fragmentos ilegíveis do exemplar lido — a margem material
Marcações
Literatura contemporânea de uma autora jovem que escreve com uma estrutura de poesia a história de uma mulher, na verdade, desde o início, de quando ela era uma menina de oito anos até os seus 52 anos, na capital paulista, muito cheia de emoção, muito recheada de drama, com uma realidade muito próxima de quem vive e viveu esses últimos 40, 50 anos. Muito atual, muito sensível, um estilo de escrita muito proprietário.
Muito fácil a leitura, certamente é um livro para fazer com que, quem não gosta de poesia, comece a gostar. A verdade é que tem uma história, que é uma prosa cheia de ritmo e que é certamente influenciada justamente pela escolha de usar uma estrutura de poesia. Eu nunca vi nenhum livro assim. A história engaja, a autora é muito sofisticada nas suas metáforas, escreve com muita emoção. É um livro muito bonito. Quero sim ler mais da Aline Bei.
“uma fundura de olho assim pequenininho cor de pedra lá dentro da testa com água de meleca nos cantos virando o canto”
p. 20
“por que não benzer o olho morto pra voltar normal? será que ele prefere não ver? imaginar o mundo deve ser mais bonito mesmo.”
p. 20
“as lágrimas que caíam na minha mão em concha, eram tantas, será que com o uso um dia a lágrima acaba?, a vida pode ser longa e eu não queria virar uma menina sem lágrima no meio do caminho uma mulher.”
p. 35
“queimei a língua, que morreu até de noite.”
p. 41
“pelo pescoço subiu um grosso de choro que eu não deixei chegar no olho, fiz força pra baixo, pro estômago, melhor virar 1 pum do que chorar na frente dele.”
p. 47
“meus pais estavam timidamente alegres no amor deles de anos, era bonito ser sexta-feira e estar casado, espero que um dia faça sexta no meu amor.”
p. 75
“as mulheres abusadas nas trincheiras e nos viadutos não estão nos livros de história. os ditadores, sim,”
p. 83
“nunca imaginei que meus sábados fossem se transformar em dias solitários, mais que segundas, dias longuíssimos, intermináveis.”
p. 112
“o amor. quando longo é coisa de quem mente, porque se for pra ser sincera...”
p. 113
“ficamos 1 mês sem nos falar, o lucas e eu. 1 mês que virou meses que virou 1 ano que virou anos sem ninguém ligar. isso aconteceu, descobri mais tarde, porque Carlos Eduardo era o nome do pai da joana, foi por isso que eles ficaram tão chateados. descobri mais tarde ainda que não era nada disso, o problema mesmo foi a falta também de amor.”
p. 175
“4 meses depois minha mãe morreu também, os médicos disseram que foi do coração e foi mesmo muita tristeza ficar tão sozinha.”
p. 182
“mas era bonita à beça, a casa nova, de uma beleza suficiente pra me fazer respirar de novo não pela boca,”
p. 193
“os primeiros raios com rastros de lua, por eles é preciso estar de olhos abertos, eles ensinam a coragem que eu nunca vi. guerras mortes latrocínios acontecem e o sol nascendo por cima de tudo, não importa ontem quem morreu.”
p. 197
“as pessoas perto de comida ficam felizes de um jeito simples, somos animais.”
p. 208
“no relógio da cozinha acabou a pilha e esse foi o único pedaço de alívio que senti,”
p. 214
“Escrever é por aí. E ler também. A gente entra num livro sem saber de nada para querer saber. Como quem se joga numa floresta. Não sabemos tudo o que existe na selva. Mas atravessamos. Do outro lado do mato saímos com um espinho no pé, uma flor no cabelo, um corte no joelho. O cheiro de uma folha. A lembrança de um banho ao sol, de riacho. O livro de estreia de Aline Bei é isso.”
p. 238
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Do acervo




