
volume
A Mais Recôndita Memória dos Homens
20 de julho de 2026 — 24 de julho de 2026
ficou na estante com9 de 10
assombrado, irônico e exuberante
sem fôlego
Relíquias
fragmentos ilegíveis do exemplar lido — a margem material
Marcações
Impressionante a capacidade que um livro que fala de literatura, que usa uma função metalinguística na narrativa, tem de nos deixar mais engajados, de nos confundir, de aproximar-se de ângulo de autoficção e/ou de biografia. É um livro muito legal, é um livro muito profundo, que brinca com os nossos próprios anseios; uma história longa, complexa, mas muito bem embasada. Muitas metáforas interessantes que fazem a gente refletir. É um livro para ser lido com cuidado, vale a pena a leitura cuidadosa. Talvez eu teria gostado mais se a linguagem não fosse tão complexa em diferentes momentos. Eu não achei que era necessário usar um vocabulário tão sofisticado. Podia ser um pouquinho mais coloquial, mas ainda assim é um livro muito legal. Gostei bastante.
“mas a vida, eu rebatia, não passa do espaço que separa, ao mesmo tempo que une, as palavras “pode” e “ser”. Tento me equilibrar no meio.”
p. 23
“Não é possível viver o instante e escrevê-lo ao mesmo tempo”
p. 31
“Comecei a beijar seus mamilos. Eu me esforçava e conseguia lhe arrancar alguns suspiros ou, mais precisamente, protossuspiros.”
p. 32
“seguem itinerários que podem ser belos ou horríveis, cobertos de flores ou de ossadas”
p. 36
“Talvez tenha sido um acaso. Talvez o destino. Mas os dois não se opõem necessariamente. O acaso é apenas um destino que se ignora, um destino escrito com tinta invisível.”
p. 36
“Volto a escutar suas palavras: Eu te invejo, mas também tenho pena de você. Eu te invejo significa: você vai descer uma escada cujos degraus mergulham nas regiões mais profundas de sua humanidade. Tenho pena de você significa: quando se aproximar do segredo, a escada vai se perder nas trevas e você vai estar sozinho, privado do desejo de voltar à tona, porque lhe terá sido mostrada a vaidade da superfície, e incapaz de descer, já que a noite terá enterrado os degraus que levam à revelação.”
p. 42
“Em seguida inspirei profundamente e mergulhei sem dificuldade, como um supositório, no olho do cu já lubrificado do mundo — cada um tem a experiência pascaliana que pode.”
p. 48
“os problemas de ter uma perna em cada canoa… …aqueles que resistiriam ao tempo poderiam ser contados nos dedos da mão de Mestre Yoda”
p. 51
“Nenhum dos dois consegue entender meus longos períodos de silêncio. No entanto, a coisa me parece simples: estou cumprindo o dever que muitas crianças hão de cumprir em algum momento da vida para com seus pais, o dever da ingratidão.”
p. 60
“O exilado é obcecado pela separação geográfica, pelo distanciamento no espaço. No entanto, a essência da solidão é o tempo; o exilado põe a culpa nos quilômetros, quando o que o mata são os dias.”
p. 61
“Meus pais queriam me falar de mil coisas, de irrisórios nadas felizes ou constrangedores”
p. 62
“"Nem todo doente quer se curar, nem todo mundo que foi jogado ao chão quer voltar a levantar, pois às vezes levantar de novo pode prenunciar uma nova queda, dessa vez mortal, nem todo mundo deseja voltar a ter uma vida normal à qual a morte às vezes não tem nada a invejar. Voltar a levantar não me interessa, voltar a levantar é, para mim, uma perigosa quimera. Não desejo ser salva, Ousseynou. Não desejo voltar. Deixe-me partir".”
p. 125
“O verdadeiro projétil que atingira seu corpo não era o tempo que havia passado. Era o sofrimento. Um sofrimento interior, que só atacou a carne após ter corroído completamente a alma ao longo dos anos.”
p. 127
““Tokô Ousseynou, entre um cego que nunca viu, o cego de nascen- ça, e um cego como você, que um dia enxergou, quem é mais digno de pena? O que é pior: nunca ter enxergado e desejar ver, ou já ter enxergado?” Refleti por vários dias e não cheguei a uma conclusão. Então pedi a opinião dele. “Acho que o mais triste é aquele que já teve visão, Tokô Ousseynou.” “Por quê? Porque viu a beleza do mundo, sente falta dela, e agora a nostalgia e o pesar são mais dolorosos que o desejo?” “Não”, ele respondeu. “É mais triste porque vive na lembrança que tem da beleza do mundo. Mas ele não sabe que sua lembrança não existe mais, pois o mundo se transforma, tem uma beleza para cada dia. O cego que já teve visão é triste sobretudo porque a lembrança o impede de imaginar. Ele está tão focado em não esquecer que acaba esquecendo sua capacidade de reinventar o que já viu e de inventar o que já não pode ver. E uma pessoa sem imaginação, cega ou não, sempre é triste. Mas você não é assim. Você já enxergou, mas ainda consegue imaginar coisas a serem vistas.””
p. 155
“Não era apenas medo o que eu sentia: era ódio, o que pode ser a forma última do medo.”
p. 156
“E Elimane? Quer saber se eu o amava? Não era um homem amável, Brigitte. Não quero dizer que fosse impossível amá-lo. Uma violência silenciosa emanava dele, e você não sabia se queria extingui-la, compartilhá-la para aliviá-lo, ou se queria fugir dela e afastá-la de si o mais longe possível.”
p. 212
“Mas a tempestade... Era sangue que a tempestade diluviana derramava. Lancei uma pomba negra na noite, ela voltou e me disse: o sangue, a terra absorve mais lentamente do que a água.”
p. 238
“Se aceitar ingressar voluntariamente no outro mundo, os espíritos que lá o esperam lhe darão uma oportu- nidade de se curar. Uma nova vida em comunidade o espera. Os es- píritos sabem que a vida da alma é mais longeva que a do corpo. É a alma que será curada. Do lado de lá tem-se tempo de cuidar dela. Você pode voltar a se tornar alguém, terá tempo para se reencontrar. Aqui já não há nada para você. Nada além do sofrimento."”
p. 267
“Citava uma frase de Vladimir Holan, um poeta tcheco: Do rascunho à obra, o caminho é percorrido de joelhos. E acrescentava: 'Esse caminho é sem fim'.”
p. 311
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