
volume
A Resistência
por Julián Fuks
12 de julho de 2026 — 13 de julho de 2026
ficou na estante com7 de 10
íntimo, assombrado e elegíaco
em espiral mas em camadas
Marcações
É um livro que tem duas histórias que poderiam ser contadas em dois livros diferentes. O terço final do livro deixa mais claro como é que essas histórias se conectam, mas explora muito pouco. Me parece um livro que é escrito com uma riqueza de vocabulário muito grande, mas os dois temas principais, a ditadura e a adoção do irmão do autor, não são muito explorados como causas para os comportamentos e para as emoções que ele cita. Tem uma hipótese de que a causa das emoções é o evento da adoção e a ditadura, mas é um livro muito superficial em termos de exemplos mais claros de comportamentos que geraram tais emoções. Como o autor não faz muita ficção em cima de histórias que ele não conhece, ele é muito factual, ele fala do passado fazendo menção a “minha mãe contou essa história”, ou olhando uma foto e falando o que ele sente olhando aquela foto, deixa muito pouco espaço pra se construir histórias em momentos que o autor não estava presente ou em momentos que o autor era muito jovem e não se lembra. Então é mais uma bibliografia do que o que eu tenho visto de autoficção, como por exemplo Rachel Cusk ou Karl Ove Knausgård escreve. Vou expandindo o meu próprio repertório pra entender as possibilidades que a autoficção traz. Rebuscado em excesso, me lembrou de quando eu li Memória Póstumas de Brás Cubas; mas hoje é justificável eu não entender o que Machado de Assis escreveu há mais de 100 anos. Não faz sentido eu ter dificuldade pra ler algo escrito por um autor contemporâneo.
“Posso ter levado um cutucão discreto da minha irmã, que imagino sentada ao meu lado, ou a pontada foi apenas o incômodo que senti ao perceber que havia errado, incômodo que tantas vezes senti sem que ninguém me acotovelasse.”
p. 13
“Vejo seu rosto se crispar por um segundo ante algum vago infortúnio, alguma frase infeliz que ninguém chegou a proferir, uma ínfima sugestão ou aproximação ao que o perturba, para logo retornar às suas feições comuns, à sua indiferença, sua neutralidade anestesiada.”
p. 15
“Estávamos entre irmãos, e entre irmãos toda coalizão é temporária, toda paz é fugidia, todo afago inaugura o próximo ataque, inevitável, que a palavra mais amena anuncia.”
p. 27
“Envergonhado, talvez, com a própria vaidade, ele nunca me manda o arquivo; eu nunca volto a pedir, envergonhado também.”
p. 40
“Ter um filho há de ser, sempre, um ato de resistência. Talvez a afirmação da continuidade da vida fosse apenas mais um imperativo ético a ser seguido, mais um modo de se opor à brutalidade do mundo.”
p. 42
“Só quando deixo de vê-los, só quando fecho o álbum e o enterro na estante tão alto quanto alcançam meus dedos, é que enfim chego a entender quanto mentem as fotos com seu silêncio.”
p. 65
Da mesma textura
íntimo · lírico · em espiral · compacto