
volume
O Avesso da Pele
por Jeferson Tenório
25 de julho de 2026
ficou na estante com7 de 10
urgente, assombrado e íntimo
fragmentado mas devastador em silêncio
Relíquias
fragmentos ilegíveis do exemplar lido — a margem material
Marcações
Primeiras duas páginas (que é o primeiro capítulo) são possivelmente as mais bonitas e profundas que me lembro de ter lido em abertura de um livro (pelo menos dos últimos 50 livros que li)
Um livro forte que não quer levantar bandeiras através de discurso político, nem buscar reparação histórica pelos racismo estrutural presente. É uma ficção sobre comportamentos e realidades numa sociedade racista, com leitura fácil apesar da estrutura não linear da narrativa. Reli as duas primeiras páginas depois de terminar o livro, são realmente bonitas. Talvez tenha subido a expectativa depois do primeiro capítulo. É uma bela história, sem a carga poética da abertura.
“Até o fim você acreditou que os livros poderiam fazer algo pelas pessoas. No entanto, você entrou e saiu da vida, e ela continuou áspera. Há nos objetos memórias de você, mas parece que tudo que restou deles me agride ou me conforta, porque são sobras de afeto.”
p. 13
“Talvez eu deseje chegar a algum tipo de verdade. Não como um ponto de chegada. Mas como um percurso que vasculhe os ambientes e dê início a um quebra-cabeça”
p. 13
“Antes de sair, vou ao seu quarto, observo da porta: há roupas espalhadas, outras jogadas dentro do armário. Sobre a mesa, há canetas sem tinta, meias sem par misturadas a notas de supermercado. Há cadernos e papéis. Há pastas com provas e redações dos seus alunos. Teu caos me comove. Olho para tudo isso e percebo que serão esses objetos que vão me aju-dar a narrar o que você era antes de partir. Os mesmos utensílios que te derrotaram e que agora me contam sobre você. Os objetos serão o teu fantasma a me visitar.”
p. 14
“Foi a primeira vez que você sentiu o ferro frio de uma algema nos pulsos.”
p. 18
“Ele te fez esperar por quarenta minutos, porque queria parecer ocupado e importante, no entanto, anos mais tarde, você descobriria que ele, na verdade, ficava na frente do computador jogando paciência ou vendo pornografia.”
p. 20
“É necessário pre- servar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre mús- culos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos. Lembro que você fazia um grande esforço para ser enten- dido por mim. Eu era pequeno e talvez não tenha compreendi- do bem o que você queria dizer, mas, a julgar pela água nos seus olhos, me pareceu importante.”
p. 61
“Muito cedo aprenderá que o seu pranto vai enfraquecer sua mãe. Então você vai evitar. Vai chorar para dentro.”
p. 69
“Tomou consciência da trajetória da dor: da demora em senti-la depois do ato traumático, porque a dor nunca é instantânea. A dor ressoa.”
p. 70
“NÃO HÁ JUSTIÇA NO amor, você me disse certa vez.”
p. 110
“Durante a sessão, fiz um grande esforço para gostar do filme, mas é que talvez seja uma coisa minha não conseguir gostar daquilo que não entendo.”
p. 112
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Do acervo




