Mudar: Método

volume

Mudar: Método

por Édouard Louis

23 de março de 2026 — 27 de março de 2026

ficou na estante com9 de 10

nostálgico, elegíaco e incisivo

imersivo mas devastador em silêncio

Marcações

  • Mais vulnerável, mais emotivo, mais depressivo. Segue profundo no nível de auto-reflexão, e abre espaço para sua própria evolução no futuro - está descobrindo que tem saudades do passado, que alcançar um objetivo não traz felicidade. Segue se descobrindo e aprendendo que a vida vai evoluir. Sigo para sua evolução.

  • Entendi que o fato de ter assistido à televisão durante toda a minha infância sete, oito horas por dia, me inscrevia numa história específica, a de pertencer ao mundo dos deserdados, dos pobres, daquilo que os ricos viam de fora como infâncias perdidas. Entendi que para eles estudar era tão natural quanto não estudar era para nós.

    p. 34

  • imaginava que os meninos ficavam longe de mim por causa da minha reputação, e que num lugar onde eu não tivesse uma reputação, um passado e portanto não tivesse história, pode- ria recomeçar tudo do zero.

    p. 37

  • Segui Elena e quando ela abriu a porta da casa entendi quem ela era, ou melhor, por que ela era a pessoa que era; na casa havia mi- lhares de livros, um piano antigo, reproduções de quadros nas paredes. O piso era coberto de tapetes, a casa, cheia de poltro- nas, como convites para ler e refletir, como se a arquitetura da casa tivesse criado Elena; desde que entrara ali seu corpo se transformara, tinha se tornado uma função do lugar, como se o seu corpo fosse uma extensão daqueles livros e daquelas obras de arte que o cercavam, como se eles decidissem seus movi- mentos e entonações.

    p. 41

  • Eu sofria por expressar minhas ideias numa linguagem que para ele mais escondia do que revelava. Essa se- paração, que nenhum de nós dois quis, é o que a pobreza en- gendra. É a própria definição da Injustiça”.

    p. 46

  • Aquele homem brilhante, com talento para matemá- tica, imbatível quando se tratava de contar histórias, mas que tinha parado de estudar no ensino fundamental

    p. 46

  • A mágoa e o orgulho coexistiam em vocês como as duas faces de um mesmo sentimento.

    p. 56

  • Ninguém precisava me explicar, eu via que o mundo era organizado em torno de princípios binários: pesado/leve, barulhento/silencioso, gordo/magro, evidente/sugerido, insistente/sutil, grosseiro/distinto, que são também princí- pios de classe, e que eu sempre estava, fatalmente, do lado me- nos legítimo dessa estrutura.

    p. 63

  • As emoções contêm nelas mesmas a possibilidade de sua própria mutação, o amor em ciúme, o ressentimento em ódio, a preocupação em angústia, o desejo de vingança em desejo de revanche.

    p. 80

  • Tudo transpa- recia em pequenas nuances ínfimas, a maneira de vestir, suas referências, as coisas que comiam, detalhes e fatos mínimos, é incrível como o mundo pode se refugiar nas menores coi- sas, o fato de que bebiam água com gás mais do que água sem gás nos jantares, por exemplo, suas conversas sobre política num tom mais pessoal, como se vivessem perto dos políticos, sendo que em Amiens o mundo do poder político era perce- bido como distante, inacessível, algo também como uma leve arrogância, a certeza de seu lugar no mundo.

    p. 113

  • Quando no colégio um menino me disse O preço da minha cueca é o preço do seu guarda-roupa inteiro.

    p. 136

  • A filósofa Eve Kosofsky Sedgwick fala em algum lugar sobre a energia transformadora inesgotável que infâncias humilha-das podem produzir.

    p. 137

  • amigos em Amiens, Elena, Julie, minha conversa era aprimo- rada com todas as coisas que eu sabia, que acabara de aprender, e eu sentia uma espécie de admiração da parte deles. Entendi que Saber = Poder.

    p. 139

  • voltava para a casa da minha mãe e fingia ler no sofá para lhe mostrar quem eu me tornava

    p. 142

  • Paradoxalmente, sua resignação me dava forças. Eu me re- cusava a pensar — ingenuamente, mas depois entenderia que a ingenuidade é uma condição para a fuga —, eu me recusava a pensar que uma coisa podia ser impossível.

    p. 150

  • Não sei se é assim para todo mundo, mas, para mim, quando o processo da minha transformação começou, ele se tornou um trabalho mais do que consciente, uma obsessão permanente.

    p. 176

  • Nos primeiros dias quando cheguei a Paris foi a liberdade dos inícios que vivi e senti, tão particular, que não se compara a nenhuma outra forma de liberdade, igual àquela que experimentei com você quando me mudei para o apartamento do boulevard Carnot.

    p. 179

  • As ruas à minha volta se deformavam por causa das lágri- mas em meus olhos e, silenciosamente, sob minha pele, eu disse Adeus ao passado. 227

    p. 227

  • Sei que se voltasse atrás eu detestaria esse mundo, e ainda as- sim sinto saudade dele.

    p. 236

Da mesma textura

íntimo · incisivo · lento · devastador em silêncio